quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Contestado


A Guerra do Contestado aconteceu no início do século XX, entre os anos de 1912 e 1916.

O conflito aconteceu na Região Sul do Brasil, onde atualmente localiza-se a Região Norte do Estado de Santa Catarina e a Região Sul do Estado do Paraná.

Naquela época, essa região era habitada por povos mestiços oriundos predominantemente das raças negra, indígena, árabe, espanhola e portuguesa. Esses povos tinham índole nômade e extrativista. Não eram habituados ao cultivo da terra, nem à produção industrial, no entanto, criavam gado e cavalos, sendo o comércio desses animais a principal fonte de renda na região. Essa época passou a ser historicamente denominada de “Ciclo do tropeirismo”, e os habitantes da região tornaram-se conhecidos como “vaqueanos”.

Os conflitos iniciaram-se logo após a criação da Província do Paraná, que se estabeleceu entre a Província de São Paulo e a de Santa Catarina. Houve falhas e até omissão por parte do governo na demarcação do mapa e do território das Províncias do Paraná e de Santa Catarina. Os coronéis e os colonizadores da Província do Paraná chegaram e tomaram posse de terras, tidas até então como catarinenses, e começaram a cobrar pesados impostos dos comerciantes de gado e erva-mate, que já se encontravam na região. Isso provocou revolta nos estancieiros que se julgavam catarinenses e já viviam há muito tempo nas atuais cidades de Canoinhas, Três Barras, Major Vieira, Valões e outras localidades próximas.

O governo federal não dava a devida assistência à Região Sul do Brasil, deixando-a a mercê dos mandos e desmandos dos coronéis que aqui se estabeleceram.

A região começou a ser explorada e a se integrar ao território brasileiro a partir da existência do transporte ferroviário.

 A construção da ferrovia que ligava São Paulo ao Rio Grande do Sul foi cedida a empresas norte-americanas em troca da exploração territorial de 15 (quinze) km de extensão às margens do trajeto. Os americanos poderiam explorar toda a floresta nativa, a fauna e inclusive vender lotes de terras devolutas para imigrantes europeus que aqui se estabeleceriam para dar início à produção agrícola, industrial e comercial.

Os operários que construíram a ferrovia São Paulo x Rio Grande foram explorados financeiramente, não receberam direitos trabalhistas, nem previdenciários e não puderam retornar aos seus locais de origem, juntando-se aos demais habitantes da Província de Santa Catarina, que também ficaram sem terra com a criação da Província do Paraná, vivendo em condições precárias.

Após quatro anos de conflitos, e com a integração da Região Sul à Sudeste pela ferrovia, o governo providenciou a demarcação das terras de cada província e a paz voltou ao Sul.
             As consequências das arbitrariedades sócio-político-econômico-geográficas perduram até hoje. A Região do Contestado ainda é uma das mais pobres e subdesenvolvidas do Sul do Brasil. Os imigrantes colonizadores europeus conseguiram a posse das terras e fomentaram o desenvolvimento da região, mas os descendentes daqueles caboclos, os ex-vaqueanos, continuaram pobres, desassistidos pelo governo e, muitas vezes, pela sociedade. Arrastaram consigo a miséria e os problemas sociais até os nossos dias, vivendo precariamente como operários, semi-analfabetos e sem moradia adequada, nas periferias das cidades da região do Contestado.

Na memória trazemos lembranças de injustiças, discriminações, conflitos e massacres. Esperamos que o futuro nos devolva a dignidade, o desenvolvimento econômico, a justiça social e o turismo histórico e ecológico.

Walterlin Forostecky Kotarski
Texto inspirado na seguinte referência bibliográfica:
RUCINSKI, Irene. Por que estudar a História do Contestado? Jornal O Comércio, edição 2855. União da Vitória, 14 nov 2002, pág. 18. 

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